O filme “300” prova que às vezes os metrossexuais defendem causas nobres para poderem sair por aí de cuecão de couro e torso depilado.
O longa de Zach Snyder, em cartaz em todo o país, é um dos panfletos mais escrotos dos últimos anos a favor da pancadaria, discriminação e banalização da morte.
Mas essa crítica é séria e não vai tratar de assuntos mundanos. Por isso conto aqui a verdadeira história do fato relatado em “300” – e abordado por Frank Miller numa HQ.
Não se enganem por Hollywood. Cheio de mentiras e pistas falsas, “300” deturpa grande parte daquilo ensinado nas escolas.
O que aconteceu mesmo foi o seguinte.
Por volta de 480 A.C., 300 metrossexuais abandonam a academia para defender a cidade grega de Esparta. Apesar de se proclamarem espadas – e carregarem várias delas na cintura -, eles adoram ficar abraçadinhos enquanto são alvejados por flechas.
Mas comecemos pelo início. Tudo estava limpinho em Esparta até que uns sem-teto – provavelmente cantores de gangsta rap - mal encarados aparecem no lugar. Os sujeitos pedem água e terra, além de prometerem invadir as fazendas improdutivas. O rei Leônidas resolve agir e colocar ordem na bagaça. Assim, expulsa os camelôs para o Buraco do Serra.
Enquanto isso, na periferia, o chefe da quadrilha PCC – Persas que Comandam a Capital -, um brasileiro chamado Rodrigo Santoro, descobre a ousadia do rei e marca um ataque aos ônibus da cidade em protesto contra a sandice dos donos do poder.
Magoado com a petulância do Rodrigo Santoro, Leônidas tenta chamar a polícia, mas o 190 ainda não existia. Então, reúne seus 300 "amigos" e parte para proteger o lugar. Antes, os garotões sarados tomam toneladas de bombas e shakes, fazem depilação definitiva e passam na Daslu, onde adquirem capas esvoaçantes e sungas minúsculas.
Suados, cansados e cheios de testosterona, os 300 usam os escudos como proteção e verificam se as espadas uns dos outros estão afiadas.
Rodrigo Santoro, que não quer ser considerado fora de moda, coloca piercings no mamilo, no pênis e fica impotente. Furioso, não só promete matar os espartanos como processar a clínica de estética que o deixou daquele jeito.
Assim que os 300 chegam à periferia, a guerra começa. Dando vários gritinhos eufóricos, os espartanos matam um por um os bandidos. Aquilo os excita, fazendo com que fiquem grande parte do tempo seminus e procurando um banheiro com espelho.
Rodrigo Santoro, impressionado com a capacidade física dos espartanos, contrata – pelo exorbitante preço de R$ 100 por hora - o personal trainer de Leônidas.
Em dois dias engrossa a voz, cresce dois metros e se casa com o treinador – numa cerimônia realizada sobre rinocerontes extintos.
Renovado pela lua-de-mel e pela nova tatuagem de um coração de mãe no braço esquerdo, ele enfrenta sozinho os 300 metrossexuais. Claro, leva junto 120 mil soldados, mas isso é um detalhe.
Depois de muito rala-rala e algumas mortes, finalmente Rodrigo Santoro e Leônidas ficam frente a frente. O líder dos persas tenta pela última vez conquistar o coração do rei de Esparta. Este diz que é espada e cai fora da relação.
Santoro, louco de ciúmes e em desespero, tenta usar a flecha do cupido para atingir seu grande amor. Só que ele não contava com a esperteza do personal trainer que, traído, resolve se vingar e se veste de cupido, matando Leônidas com uma flechada envenenada.
Os 300 metrossexuais que restaram se engalfinham com os vilões e morrem enquanto se besuntam de óleo para realçar os músculos. Rodrigo Santoro sai vitorioso e abre uma joalheria. E as mulheres de Esparta começam vida nova e passam a fornicar como doidas com os covardes que ficaram por lá, dando origem ao mundo Ocidental.
Eu sei que é difícil de acreditar. Mas a verdade é muito mais dura do que a ficção.
Ana é uma espanhola nem feia nem bonita. Ana tem perto dos 30 anos, altura ali na faixa do 1m65 e trabalha numa financeira em Madri. Ana já teve alguns namorados firmes, mas hoje está solteira. Ana mistura cores e roupas meio descompromissadamente. Ana raramente sai para se divertir. Ana gosta de comer giz. Ana devora caixas inteiras de giz. Desde pequena, Ana adora sentir o gosto de giz na boca.
Ana é esquisita. E por isso gostei muito dela.
Ana é a personagem principal do livro “Os Devoradores de Giz” (editora Rocco), de Oscar Aibar – um autor espanhol de histórias em quadrinhos e também diretor de longas-metragens.
Ana me fascinou – assim como outros malucos que aparecem na história – justamente porque tem lampejos de coragem e assume sua esquisitice e suas paranóias. Claro que assim Ana afasta alguns pretendentes. Eu gostaria que Ana soubesse que esses machões que recusam o estranho – e só se sentem bem ao buscar as certinhas - são uns bundões.
Por isso eu e o Gordo sacaneamos tanto os metrossexuais. Porque eles são certinhos, pô. Os certinhos ainda vão acabar com o mundo.
“A maioria dos humoristas hoje é muito certinha”, disse o cartunista Jaguar em entrevista publicada na “Folha de S.Paulo”. E se a coisa atingiu assim aqueles capazes de desvendar a maluquice do mundo, imaginem o resto.
Pois é, Jaguar, a maioria está certinha sim. E os esquisitos ficaram fora do jogo.
Quem não tem lá sua esquisitice que atire o primeiro pote de creme.
Ainda mais hoje, com uma paranóia nova a cada segundo. Um fim do mundo diferente por dia. Uma promessa de felicidade inovadora a cada mês. Um bagulho tecnológico ousada a cada minuto.
A tchurma está cada vez mais esquisita. E diferente. E fascinante.
Aí surgem esses patrulheiros enchendo o nosso saco, querendo uniformizar tudo, colocando todas as bagagens na mesma esteira – esta última sentença não significa muita coisa, mas a imagem é interessante.
E o que fazer com a Ana que come giz? E com a sexy, divertida e sincera Clementine (Kate Winslet), a esquisita de “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”? E com todos os outros listados no divertido e tocante livro de Aibar?
E como tudo acontece com meu amigo Armandinho, ele me procurou para contar que engatou um novo flerte. Porém, acha que as coisas não vão seguir, pois a pequena tem umas esquisitices.
Eu perguntei: quais? Ele me respondeu: ela gosta de dormir de meia. Eu perguntei: e daí? Ele me respondeu: só de meia. Eu perguntei: pelada, mas com meia? Ele me respondeu: que puta nome de banda. E encerramos o papo.
Até isso virou esquisitice? Uma mulher sem uma mania, uma loucura, um trejeito não é humana. Quantos de nós escondemos alguma coisinha por aí só por medo de desapontar o outro? Por receio de não parecer correto?
Ana passava muito mal quando escondia seu apetite por giz. Ela queria ajuda. Mas como implorar auxílio num universo tão pouco generoso como o nosso? Como ser diferente no meio da manada? Só resta para a turma guardar e acumular as esquisitices - até que elas explodam em insanidades prejudiciais tanto para o portador como para os certinhos.
Pois eu adoro ouvir umas esquisitices. Isso nos deixa mais próximos da existência plena. Claro, não confundam esquisitices inofensivas com completas doideiras. Serei didático. Exemplo: dormir pelado e de meia é esquisitice. Assassinar meia dúzia é doideira.
Cada um de nós coleciona seu próprio mundo. Uma loucurinha só nossa, íntima, que nos mantêm ligados ao planeta, vivos e únicos. Indivíduos, enfim.
Quando uma pequena me confessa uma esquisitice, em vez de afastar, tento entender e às vezes até experimentar – não gostei muito de giz, mas dormir pelado e de meia até que é bacana.
Enquanto isso, os cheios de preconceitos ficam aí, achando que são perfeitos. Uns robôs, pois sim.
Assumir sua esquisitice é provar um pouco da maluquice que é viver. Qual é a sua?
Todo homem precisa pelo menos uma vez ao ano chafurdar na lama ou enfiar, desculpe Monjardim te lembrar desse “sucesso” , o pé na jaca. Não é de hoje, que nós, pequenos animais do sexo masculino, convenhamos alguns não tão pequenos e outros nem tão masculinos assim, mas todos com certeza loucos por sexo precisamos de um dia, de uma noite ou de umas férias para se escarafunchar nos maus hábitos de outrora, que nos recordam de nossos áureos tempos de predadores notívagos em busca de sexo, drogas e rock´n roll, não necessariamente nessa ordem.
Um porre ao ano, deixa o homem menos chato e menos angustiado. Se levarmos a máxima de Antonio Maria ao pé da letra: “Angústia é o resultado da perda de intimidade de um homem consigo mesmo”. Posso afirmar que estes breves momentos, nos quais os homens retomam euforicamente as rédeas da sua vida, não importa se por uma ou duas horas, são responsáveis por manter-nos íntimos de nós mesmos e por isso mesmo sãos.
Não há Don Quixote que lute sem uma Dulcinéia, por isso meninas, antes de demonizarem aquele amigo atrapalhado do seu namorado ou marido, saiba que antes de tudo é ele que consegue manter seu homem íntimo de si mesmo, e sem essa qualidade ele jamais seria capaz de agrada-la, ele seria reduzido a apenas mais um cavaleiro da triste figura e são tantos hoje em dia.
São “revivals” como esses que tornam os homens crianças grandes de novo, daí surge um novo prazer em redescobrir coisas sobre si mesmos e as suas companheiras, mesmo que a cara emburrada dure uma semana. Por isso, antes de mais nada, falo por experiência própria são 4 anos de casamento, os homens deveriam trazer uma tarja de contra-indicação no casamento, para a mulher não poder alegar estar desavisada, acho que seria algo mais ou menos assim: “O Ministério da saúde adverte é essencial ao homem uma vez ao ano enfiar o pé na jaca”.
Outro dia conheci uma mulher alfa. Não, não foi no zôo. A pequena estava livre, leve e solta. Mas, depois de alguns minutos de papo, pensei o quanto seria bom enfiar aquele monstrinho atrás das grades de uma jaula.
Vocês viram a capa mais recente da revista “Época”? Não perderam nada. Porém, foi lá que conheci a nomenclatura “mulher alfa”. Leiam. Ou melhor, vou explicar aqui um pouco o conceito, assim economizam R$ 7,90.
Olhem trecho do editorial de Helio Gurovitz – diretor de redação do hebdomadário - e entendam um pouco mais a sacada: “Um novo livro detectou um fenômeno recente na sociedade – a mulher alfa. Trata-se de uma mulher talhada para ser líder, competente na vida acadêmica e no universo profissional, sem deixar de lado a vaidade e o cuidado com a beleza, características femininas por excelência. ‘Elas não têm dúvida sobre a própria capacidade e são muito bem resolvidas’, diz o psicólogo Dan Klindon, criador desse conceito”.
Pronto. Que bela economia de bufunfa, hein?
Então eu estava lá, ouvindo uma garota falar sobre as suas qualidades, sua alegria, o quanto é assediada, como é excelente em sua profissão etc. Apesar de segurar duas latinhas de cerveja na mão, pedi licença para buscar uma dose de vodca na cozinha.
Odeio vodca. Mas vocês entendem, eu precisava sair dali. E percebi que a tal mulher alfa era suuuuuper bem resolvida. E chaaaaaatttaaaaa pra cacete.
Só que não pretendia falar sobre as alfas. Quero mesmo é bater um papo sobre as chatas – alfas, betas ou gamas.
A chatice tira toda a graça da mulher. Eu sei que o mundo pode ser chato. Mas fico realmente penalizado quando uma pequena é mala.
Nós sabemos que homens são naturalmente meio chatos. Afinal, eles sempre têm que bancar os poderosos, conquistar a moçada etc. E isso é realmente enfadonho.
Gays também são potencialmente uns pentelhos porque carregam um lado masculino, panfletário. A gente perdoa, pois nos acostumamos.
Mas a mulher... Sempre há ali um charme, uma boca, um cheiro, um jeitinho de pedir afago, um dengo, um cuidado, um feitiço... São umas graças. Agradáveis por natureza. E aí ela resolve ser chata. E não tem jeito.
Não existe nada menos sexy no planeta do que uma mulher chata.
Qualquer baranga, um traste mesmo, ganha de uma Camila Pitanga – com aquele jambo todo - chata.
Então voltemos ao caso das mulheres alfas. Fiquei com medo da reportagem. E, sinceramente, a figura que colocaram na capa da revista para ilustrar o texto me parece muito chaaaaaaataaaaa.
A imprensa lasca na moçada esses conceitos aí, não explica direito, publica a situação meio no sensacionalismo, e as meninas começam a se achar. Então, todas acreditam que são alfas, dominam a parada, não tem mais pra ninguém e pimba. Viram chatas.
As conversas de uma chata giram sempre em torno de seus próprios problemas, soluções, sensações, idéias e blábláblá. Um pé no saco, viu.
Pôxa, mulher é uma coisinha tão linda, sensual, inteligente, cheia de poderes intrínsecos, pra que bancar a chata? Pra que estragar tudo?
Eu vejo umas garotas alfa que se bastam. Dominaram o mundo, arrebentaram com tudo, mandam e desmandam. Atingiram a perfeição. Sei... Mas, se ficarem maçantes, vão implorar por carinho, de pires na mão.
Não há maior pecado do que uma mulher chata. É detonar uma obra impecável. É colocar bigodinho no quadro da Mona Lisa. É impedir o milésimo gol do Romário. É pintar uma Ferrari de rosa. É jogar cloro no mar. É um capricho desnecessário.
Mulher só é chata se quiser. Homem nasce chato. As fêmeas conquistam a chatice.
Pensem bem meninas. Olhem as suas amigas. Conversem com os meninos. E verifiquem o que nos deixa assim, chateados. Às vezes é só uma bobeirinha, uma sacanagem qualquer, mas pode ser um horror pra quem está ali, tentando encontrar a beleza – que a chatice teima em esconder.
Imaginem um senhor de 70 anos, calmo, pacífico, gentil, mas que ao apagar das luzes torna-se um monstro irrascível capaz de quebrar móveis, quadros e até agredir sua mulher. Tudo isso, sem o menor remorso ou lembrança na manhã do dia seguinte. Parece mentira, né? Mas o sujeito sofre de um raríssimo distúrbio do sono. Imaginem se a moda pega?
O sujeito enquanto dorme enche a mulher de porrada e quando acorda pergunta para ela: benzinho o que aconteceu no seu rosto? Quem fez isso com você? Quem foi o covarde?
Ou ainda para aqueles malandrões de plantão que sempre pensam que vão se dar bem, o sujeito dorme e vai para o rendez vouz mais próximo, lá chegando , se esbalda na bandalha e quando volta para casa pergunta: amor por que você está com esse bico? O que foi que eu fiz? Não gosta mais de dormir de conchinha comigo?
Enfim, nos tempos bicudos da AIDS, eis aí um bom sentido para “doença oportunista”, você fala que a tem e nunca mais vai faltar oportunidade para você fazer cagada a torto e a direita e sair ileso de uma delegacia, hospital ou orgia.
Aqueles que se animaram, vou logo explicando, a doença é raríssima e o diagnóstico dificílimo, portanto quem pretende usa-la como álibi, é bom ter em mente que até lá, vai apanhar muito, vai assinar muito BO, até ser considerado doente.
Mas imagine o que você faria com seu chefe, depois de diagnosticada a doença?
Eis a minha dica de hoje, inspirada em reportagem da BBC Brasil. Juízo Moçada.
Há um bom livro na praça. Trata-se de “Por que a Mulher Gosta de Apanhar” (editora Nova Fronteira), uma coletânea de entrevistas realizadas pela jornalista Christina Autran. Além de seu texto não afogar as revelações e histórias das personagens – e muitas vezes ter bastante sabor -, o time escolhido para falar é daqueles de arrebentar campeonatos: Millôr, Guimarães Rosa – em uma não-entrevista antológica -, Cony, Chico Buarque, Glauber Rocha, Clarice Lispector e seguimos.
O período abordado – 67 a 75 – parece que é um daqueles em que as pessoas tinham o que dizer. Mas o que importa neste artigo são as páginas dedicadas a um encontro com o dramaturgo e anjo pornográfico Nelson Rodrigues.
Vale aqui uma digressão. Quando eu tinha uns 14 anos e perguntavam se eu já sabia qual profissão seguiria, comentava internamente que gostaria de ser Nelson Rodrigues. Assim, quando tivesse meus 30 anos, seria autor de teatro, polêmico, genial, morador do Rio de Janeiro e torcedor do Fluminense. O mundo gira e a Lusitana roda e aqui estou. Sou roteirista de TV, conciliador, uma besta, moro em São Paulo e torço pelo Corinthians. Um retumbante fracasso, eu sei.
Eis que leio a tal reportagem da Christina e por uma dessas coincidências do destino consigo o e-mail do velho Nelson. Explico. Outro dia entrei num chat com o Vinícius de Moraes, o Poetinha (leia no sítio MPNM). Pois então. Ele me segredou o endereço eletrônico do dramaturgo – depois que prometi morrer abraçado com garrafas de uísque. Enviei algumas questões e agora publico neste espaço.
Claro que pedi o telefone do ídolo, mas Vinícius disse que pelo aparelho só o Jabor consegue falar com o mestre.
Tudo bem. De qualquer maneira, aí está, na íntegra, a primeira entrevista por e-mail do Nelson Rodrigues.
MPNM – Primeiramente, estou honrado em conversar com o maior autor de teatro do Brasil. E agora acho que realmente podemos te chamar de anjo pornográfico, não é? Rere.
NELSON RODRIGUES – Meu anjo, você me parece uma besta, desse tipo que se esconde atrás de piadas, com medo de encarar a verdadeira provocação da vida, que é se desenvolver. O ser humano até hoje não se tornou adulto. Todos nós somos meninos. Menos eu. Que agora estou completo, pois não sou nada. Muito menos anjo. Só sinto falta de suspensórios. Esse negócio de andar pelado não é comigo.
MPNM – Eu e o Gordo temos um sítio em que discutimos o comportamento do homem e da mulher numa época sinistra, politicamente correta e lotada de metrossexuais. Mas segundo li em uma entrevista sua concedida em 1967, a coisa não era tão diferente assim há tempos. O homem deixou de ser homem?
NELSON RODRIGUES – Repito: a mulher tem sido pouco mulher e o homem pouco homem. E é assim aqui no Paraíso também. Que, aliás, às vezes parece a Zona Norte carioca. Mas não há dúvida que ainda a grande marca da nossa época é uma degradação recíproca de características sexuais. Isso no plano físico e psicológico, evidentemente. Morri no dia certo.
MPNM – E as mulheres hoje? Você consegue acompanhar a revolução do comportamento feminino no século 21? O que acha disso?
NELSON RODRIGUES – Meu anjo, eu acho que logo vamos ter uma contra-revolução feminina. Logo elas vão perceber que estão se tornando homens mal acabados, logo vão voltar para seus matrimônios e filhos, e serão mulheres outra vez. Elas já estão cansando de brincar. Vejo uma volta da maternidade. Atrizes pegando guarda de filhos asiáticos... Cadeirudas querendo novamente encantar o vendedor de Grapette... Acho que é uma questão de tempo. Ainda tem Grapette?
MPNM – Você sente falta da Terra?
NELSON RODRIGUES – Não, porque aqui é igualzinho aí. O Otto Lara brinca comigo dizendo que eu serei o primeiro imortal a morrer de câncer por causa do cigarro. Continuo fumando, alimentando minha cabrinha, bebendo leite para acalmar a úlcera e encenando minhas peças. Eu e Shakespeare nos tornamos grandes amigos. Apesar de eu ser melhor do que ele, claro. Fizemos umas coisinhas juntos. Semana passada, montamos um “Hamlet” bem melhor, porque a Ofélia fica com câncer num dos seios. Um padre aqui não gostou e fez uma passeata. Mas é a função deles, certo?
MPNM – Por que não existem mais Nelsons Rodrigues? Uma frase como: “nem todas as mulheres gostam de apanhar, só as normais” jamais poderia ser publicada num jornal hoje. O que aconteceu?
NELSON RODRIGUES – Isso é o óbvio ululante. O politicamente correto é o ponto máximo da criancice do homem. Não há opções. O mundo aí se divide entre aqueles que têm a baba bovina da inveja e os outros, incapazes de qualquer ousadia, que ficam lá, chupando o Chicabon da miséria e da covardia. O homem deixou de ser homem faz algum tempo. Hoje todo mundo fica me saudando como se eu jamais tivesse sofrido a dor de viver. Mas eu levei vaias, encarei os críticos, trabalhei desde os meus 13 anos – comecei como repórter de polícia. Escrevi minha primeira peça, “A Mulher Sem Pecado”, aos 27 anos. Fazia colunas e mais colunas por dia. Fui um mártir do trabalho. Isso é fácil? A humanidade está folgada demais. Acha que ter um blog, um site, tirar umas fotos, tudo isso é ser artista e mudar o universo. Eu estou morto, e mudo mais a ordem dos planetas do que vocês. Cresçam, meninos.
MPNM – Você gostaria de falar alguma coisa para alguém? Um recado? Uma frase bombástica?
O novo filme de Sofia Coppola, “Maria Antonieta”, deve constar do manual básico da educação sentimental de todos os homens. Mais do que ter momentos fofos (argh!) para as moçoilas – duvido alguma pequena não gemer de prazer com aqueles sapatos, vestidos e cachorrinhos -, a filha do poderoso chefão ferra os machos de tudo quanto é jeito no seu longa-metragem.
Vale a pena fazermos uma pausa para explicar um pouco o que acontece na tela. Talvez vocês não se lembrem, mas um dia o planeta não falava só em Bush, aquecimento global e BBB. Lá pelos anos 1770 e cacetada, a arquiduquesa da Áustria, Maria Antonieta, teve que se casar com o delfim (neto, mas do rei) da França para assim evitar que as duas nações se estranhassem.
A menina era – bem - menor de idade e encarou um garoto um tanto mal-ajambrado e com nenhum apetite sexual – o gastronômico, em compensação, era uma grandeza.
Tudo isso numa época de derrocada do império, quando os franceses resolveram acreditar em filosofia – não confundam, o Sartre veio bem depois – e invadiram os jardins de Versalhes para tomar o poder – e nem se preocuparam em não pisar na grama.
Lembram agora? Isso mesmo. A Maria Antonieta é aquela que perdeu a cabeça na guilhotina e tal.
Voltando. A Sofia Coppola (do também fofinho “Encontros e Desencontros”) narra essa aventura histórica sob um delicioso ponto de vista: o de uma adolescente que subitamente passa a morar na Disneylândia.
Pois, caro leitor, todos os medos, anseios e loucuras da jovem Antonieta são bem parecidos com os da sua irmã mais nova – ou, e isso é grave, com os da sua namorada/esposa.
E finalmente escrevo um pouco sobre a minha tese. Sofia, a diretora, é uma mulherzinha bem insolente. Isso porque os machos da corte francesa de seu filme são uns néscios. Um bando de acéfalos sem sal – com raras exceções, como o velho farrista Luís XV e um sueco.
Aparentemente, a mulherada ficava meio sem assistência naquele período – parecido com o que acontece hoje, na verdade. Até as músicas são as mesmas. Agora entendo porque esses críticos que têm colunas em jornais dizem que a rapaziada do New Order é “dinossauro do rock”.
Mas que bela lição a madame Maria Antonieta nos dá. Rejeitada pelo maridão, ela procura consolo – com trocadilho – com as amigas safadinhas, com um ou outro cãozinho de estimação e com... Um jovem sueco, claro.
Toda mulher é um pouco Maria Antonieta. Não que as pequenas prefiram aqueles que nascem na Suécia, mas sim porque elas curtem mesmo um afago, uma brincadeira, uma festinha, um pouco de atenção, um flerte, um sopro de amor na orelha, um amasso num canto, um tapinha na bundinha, uma flor, um “vem cá, tesão”.
Vamos citar o velho Nelson Rodrigues? Oba, vamos sim. “A mulher só é feliz, só se realiza, só existe como mulher, no amor. Enquanto vive para seu amor, e consegue realizá-lo, atinge sua furiosa plenitude. Mas, se por azar, ou por qualquer outro motivo, se desvia do seu verdadeiro destino feminino, então se aniquila”, cravou Nélson. E eu complemento: sem o amor, ela se aniquila ou procura outro, meu anjo.
Os homens é que são uns bundões, chatos pra cacete quando querem falar sério e tal e coisa. E o que adianta? Às vezes deixamos o prazer porque o dever nos chama por aí. E a bastilha cai do mesmo jeito. O homem tem que ser tão hedonista quanto a Maria Antonieta.
A mulherada quer mesmo é saudar o Sol, comer doces até a insulina fazer bico, beijar muuuuiiiitttooo, comprar sapatos, se olhar no espelho e, no final, jogar seu corpo num peludo carinhoso.
O recado da Maria (e da Sofia, que dizem fez o mesmo com seu ex Spike Jonze) é: quem não comparece, desaparece.
Sem essa de inventar dor de cabeça, cansaço do trabalho, uma dorzinha na vértebra direita, um calo no dedinho, soninho ou gases.
Eis o bonito recado das Marias Antonietas que passeiam pelos nossos Versalhes: seja homem, rapaz. Ou quem vai perder a cabeça é você.