O que dizer de um ano em que o tal You Tube jogou sacanagem no ventilador? Certamente não sairemos impunes desse treco. Apenas com meus brilhantes estudos de Filosofia da Mulher e das Formas Oníricas Femininas, ainda não sou capacitado para julgar se tivemos um 2006 bom pra cacete ou ruim pra caralho.
Vejo por aí centenas de listas dos “melhores, piores, horríveis etc.”. Gostaria mesmo é de publicar uma análise sobre as tais listagens dos outros. Poderíamos escolher a “pior lista dos melhores filmes do ano” e assim por diante. Mas conseguiríamos novos inimigos. E já temos vários. Alguém se habilita?
Neste balanço, vale a pena lembrar as enquetes do MPNM, que funcionaram como espelhos da sociedade durante os últimos 12 meses.
Pelas nossas votações, constatamos que somente o jornalista Xico Sá ainda pode ser chamado de “cabra-macho”. O pernambucano arretado levou todas as glórias quando o assunto foi a escolha de um sujeito realmente sem frescuras.
O que nos leva a uma terrível conclusão sobre o ano que passou: os metrossexuais ganharam força. Apesar dos esforços sobrenaturais e sobressexuais deste sítio, os “metros” abandonaram o bosque encantado onde viviam isolados e se infiltraram entre os atores da Globo.
Danou-se. Em pouco tempo o planeta estará possuído por hordas dessas terríveis criaturas. Como acreditar num mundo onde até mesmo o Gianechinni leva foras em praça pública?
O que isso tem a ver com os metrossexuais? Sei lá. Queria apenas ser solidário com o jovem Giane. Prometo escrever em breve uma teoria da conspiração unindo Marília Gabriela, Darth Vader, Lula e a revista “Veja”.
Falando em sacanagem, nunca observamos tanta -e tão poderosa- vinda diretamente de Brasília. E por aqui, nosso estimado público também exigiu participar um pouco da suruba política. Por isso mesmo, em um dos pleitos do MPNM, a tchurma pediu para que Heloísa Helena aparecesse em trajes sumários (de biquíni). E também mostrou predileção para se aprofundar na plataforma política da Dani Buani, do PTB, chamada de “musa do mensalinho”. Quem se lembra?
Sei lá. Mas um sujeito que não será esquecido tão fácil é Chico Buarque. Recordista de babadas por aqui, o cantor/compositor/peladeiro provou que muitas coisas podem mudar, mas ele continua o mesmo (voz, cabelos e cor de olho). Ninguém despertou tantos desejos –nem mesmo o Rodrigo Santoro- entre as pequenas que freqüentaram este pedaço de pecado virtual.
Com aquela história de roda viva, mulheres de atenas, ela faz cinema... Beleza pura, meu irmão.
Agora observem o paralelo... Xico Sá e Chico Buarque formaram a única unanimidade no quesito “homem com H”... Entenderam? O negócio é virar “chico” meu. Com qualquer grafia. O importante é o som.
2006: O ano em que o mundo ficou de CH(X)ico. E use o duplo sentido que preferir. Tanto aquele que se refere ao planeta tingindo de vermelho graças ao título do Internacional; como o que faz alusão a um mundo meio incomodado com sua situação, sem as esperanças -ou infortúnios?- de uma gravidez. Uma terra sem herdeiros.
Mas ainda teríamos que comentar a frescura do Roberto Carlos (do jogador –do compositor nem vamos gastar teclado) ao levantar a meia no jogo contra a França e permitir que a bola entrasse no gol canalinho. Pra mim, o fato escancarou a definitiva prova de que o metrossexualismo pode derrubar uma nação. Ajeitar a vestimenta para aparecer bem na foto? Humpf.
E o que dizer da cabeçada do Zidane? E do rebaixamento de Plutão? E dos novos Cds de Ana Carolina? Um ano cheio de sacanagem, pois.
Pra completar, nós, macho pero no muchos, pedimos um pouco de carinho e atenção. Imploramos para que os aviões que andam soltos por aí nos dessem alguma bola. Cansamos de cantar a beleza das mulheres de todas as crenças e tipos.
Escutaram nossas preces. Mas deixaram no chão os aviões errados.
Que ano, minha gente.
Só podemos exigir um 2007 sem creme, mas com muito açúcar e afeto para todos nós.
Este texto é uma forma de protesto contra o consumismo excessivo neste período do ano, que deformou o verdadeiro Espírito de Natal, um desabafo de um amigo, que julguei pertinente, pois nunca este período foi tão venal e tão excludente quanto agora.
Meu amigo, o Dr. Piracanjuba, está beirando os 60 anos e como tal está perdendo a trava na língua, vejamos o que ficou entalado em sua garganta durante toda sua vida, e só agora ele finalmente teve coragem de dizer em sua cartinha:
Exmo. Sr. Papai Noel
Quando criança nunca ganhei presente, visto que, meu pai nunca tinha dinheiro e, estávamos sempre "fodidos", e a grana mal dava para comprar aquelas "merdas" que todo mundo gosta de comer nesta época (peru, leitão, castanhas, nozes e etc.). Devo confessar que eu detesto tudo isso, agora que posso comprar.
Quantas noites levantei da cama para ver se o Sr. tinha deixado alguma "bosta" para mim, nada, sempre nada, mais de nada a cada ano. Deste modo, eu sempre achei que o Sr. fosse um grande "filho da puta" de velho, egoísta e mau, que só trazia presentes para os meninos ricos e me deixava com meu saco de pão amassado colado na parede vazio.
Talvez, seja por isso que nesta época do ano eu sempre fico "meio" triste e desencantado com a sua maldita figura.
Minha vontade, sinceramente, era colocar o seu "saco", não o de brinquedo, mas aquele que o Sr. tem entre as pernas em uma "morsa" para ser apertado até o Sr. perder a fala, em seguida colocaria seu "bilau" na boca de uma "índia canibal".
É por todos esses motivos que eu tenho "asco" da sua figura e gostaria muito de enforca-lo em praça pública no meio de todas as crianças que o Sr. esqueceu.
Sem mais, quero que o Sr. "vá tomar no cu", seu velho "canalha".
O direito de coçar o saco e o perfume de David Beckham
Li na Anete –licença Ivan Lessa- um texto descendo o cacete nos homens. Mais especificamente criticando nosso saudável hábito de “coçar o saco”.
Não falamos aqui sobre roteiristas, intelectuais, chefes ou estudantes profissionais que costumam acariciar os bagos metaforicamente.
A coçada que o raivoso artigo atacava é aquela tradicional, do dia-a-dia, de mão cheia, às vezes até por dentro da cueca. Sabe assim, quando o sujeito está quietinho, na dele, esperando o ônibus, então resolve conferir o material? Aí vai com gosto, enche a mão –ou parte dela, depende do tamanho da mão e do companheiro, claro- e sorri satisfeito.
Não entendo por que esse preconceito contra a poética coçada de saco. Nem todos saem pelos cantos afagando o garoto por exibicionismo. A gente mexe lá porque... Ora, pausa para uma fábula esclarecedora.
Uma vez trabalhei com um diretor de TV que usa o “coçar o saco” como marca registrada. Um pândego daqueles, gente como a gente, um lorde da lama. Não é capaz de interromper o vôo de uma mosca, quanto mais maltratar humanos.
Eis que um dia um medíocre apresentador chega para o nosso nobre “coçador de saco” e diz com ódio: “Meu, por que você coça tanto o saco?”. Ele, sem pestanejar, respondeu: “Por quê? Porque coça, porra! Porque coça, caralho!”.
É isso, queridas leitoras. Por mais que vocês insistam em nos criticar, nós coçamos o saco porque... Coça!
Ou vocês ajeitam a calcinha, o sutiã, tiram meleca do nariz etc. por simples vontade de se tornarem aberrações?
Talvez aqueles que habitam locais de temperaturas amenas mexam com menor frequência na zona do agrião. Mas do lado de cá do mundo, o calor nos surra constantemente. Não há cueca sem costura, boxer, samba-canção que nos faça parar de suar na região do pipi.
Claro, existem certas regrinhas de conduta social um tanto óbvias. Praticar o ato em público e sem nenhum disfarce é realmente perigoso. Pode dar cadeia e ofender a moral. Porém, às vezes, não dá pra segurar. É como um espirro. Você simplesmente PRECISA coçar o saco.
Meninas, eu peço que não joguem todas as maçãs naquele saco de lixo. Muitas vieram diretamente do Paraíso. Homem que é homem sabe coçar o saco com elegância, com dignidade –diria até mesmo com certa sensualidade.
Comecem a separar o joio do trigo. Não julguem o sujeito assim que ele direcionar os dedos para o conjunto arquitetônico Pinto/Saco/Virilha. Espere a qualidade da coçada. Verifique se foi realmente necessária ou não. Aí sim publique o veredicto.
Não temos banheiros, moitas ou esquinas dando sopa por aí.
Para aqueles que pretendem entregar os pontos e se policiar, ou seja, nunca mais dar aquela mexida na tchurma, indico o novo perfume do jogador inglês David Beckham, que acaba de ser lançado no Brasil.
O Instinct David Beckham tem ingredientes como anis, pimenta vermelha e vetiver do Haiti.
Além de te deixar com o cheirinho do jogador, acredito que o produto pode ajudar a conquistar atitudes metrossexuais. Com certeza, se der uma borrifada na cueca, você não sairá coçando o saco feito um macho qualquer. Não li a bula, portanto desconheço os efeitos colaterais de se usar um treco desses.
Agora licença porque preciso fazer aqui uma coisinha.
VINÍCIUS: Eu sei e você sabe/ Já que a vida quis assim/ Que nada nesse mundo/ Levará você de mim.
CARECA: Poeta, eu sou espada!
VINÍCIUS: Ah... Nessa história de chat, nunca se sabe qual sexo o codinome esconde. Prefiro chegar já mandando ver.
CARECA: Por isso mesmo te procurei. Aqui na Terra estão jogando futebol. Muito mal. Mas o que eu quero lhe dizer é que a coisa aqui está preta. Parodiando a música do Chico Buar...
VINÍCIUS: ... Chega! Tô sabendo. Muita babaquice é? Mas tem uísque ainda?
CARECA: Por enquanto. É o que resta para os corações sóbrios.
VINÍCIUS: Um horror isso.
CARECA: Pois é. Tudo é assédio, tudo é ofensivo. Como diz o Mautner, a gente tem que escolher entre maior liberdade ou maior repressão. Os metrossexuais est...
VINÍCIUS: ... Chega. Não comentei o estado das coisas. Eu falei que a SUA POESIA é um horror!
CARECA: Sei. Está faltando um pouco de imaginação, humor e sacanagem. Vocês vão ficar aí pra sempre é?
VINÍCIUS: Claro. Rapaz, outro dia mesmo peguei a Cleópatra e a Marilyn Monroe se beijando. Fiz um sambinha. Mas o Jobim esculhambou tudo e o Antônio Maria começou a sacanear... Ah, fiquei puto mesmo, caralho! Rapaz, você é jovem, então vou te dizer só um conselho: envelheça!
CARECA: Mas quem falou isso foi o Nelson Rodrigues!
VINÍCIUS: E alguém se lembra? Porra, sempre me plagiaram... Quando tenho a chance de descontar, você vem me podar... Que merda!
CARECA: Desculpe, Poeta. Queria saber como colocar um pouco de bossa nessa tristeza consumista de hoje. Outro dia vi um comercial. Um garoto recitava Camões para a namoradinha. Ela não entendia nada e fazia uma careta de enfado. Aí, ele entregava um perfume e a pequena se derretia toda. Sacou? Se quiser comer alguém, tem que dar presente. Nada de poesia. O mundo perdeu a ambigüidade das emoções. Agora tudo é concreto, palpável...
VINÍCIUS: É, meu amigo, só resta uma certeza/ É preciso acabar com essa tristeza/ É preciso inventar de novo o amor.
CARECA: Que beleza... “Carta ao Tom”, né?
VINÍCIUS: É. Falando naquele malandro... Outro dia... Rara. Outro dia a gente tomou um porre e a menina que estava com a gente... Acho que era a Simone de Beauvoir... Quebrou a garrafa de uísque. Aí a gente começou a lamber os cacos... Pra não desperdiçar. Rara. Uma farra.
CARECA: Mas essa história aconteceu aqui na Terra também... O Tom conta num documentário... Só não era a Simone, claro.
VINÍCIUS: É mesmo? Porra. Então a gente não mudou nada. Nem depois de morto. Rarara. Aliás, o Sartre, coitado. Esse negócio de existencialismo... Aqui não cola, né? Ninguém de fato existe no além... Ele está quebrando a cabeça tentando inventar outra filosofia de vida... Ou de morte. Enquanto isso, a gente crau na Simone. Rara. Uma farra, rapaz, uma farra.
CARECA: Poeta, escrevendo sério. A turma toda anda fumando sem tragar e jamais pagando pra ver. O que fazer?
VINÍCIUS: Manda todo mundo pra tonga da mironga do kabuletê. Eu vejo daqui o bode de vocês. Consumo, mercado, dinheiro, politicamente correto... Isso sempre existiu. Mas hoje, com o real sufocando toda e qualquer imaginação, ficou pior. Vocês têm que passar por uma nova década de 60. O problema que qualquer revolução aí será patrocinada por um programa de computador ou por uma marca de cerveja. Fudeu.
CARECA: Você acha que não é possível acabar com a caretice do mundo?
VINÍCIUS: Veja você, rapaz... É. Você mesmo... Um babaca também. O que está fazendo para mudar isso tudo? Pensa que não sei? Uns trabalhos vagabundos para a publicidade, uns eventos safados para umas empresas... Cadê o romance, a poesia, a prosa, a vida? Fica aí digitando qualquer coisa, esperando o bonde da mudança... Vocês jovens... Quer saber? Falta é coragem de se apaixonar pela vida. Mergulhar em projetos, amores, amigos. Vocês todos viraram uns diplomatas cagões, cheios de medo de passar fome, desagradar a namoradinha, pisar na bola com os pais. Os sujeitos com dinheiro venceram e jogaram vocês na periferia do mundo. O Oiticica está aqui e não me deixa mentir: seja marginal, seja herói. Temos que voltar a dizer “não”. Quer dizer, vocês têm. Eu vou abrir aqui mais uma garrafa.
CARECA: Mas nós estamos tentando...
VINÍCIUS: ... É preciso reinventar o amor. Aquela generosidade pelo outro. Voltar aos livros, ao papo, ao bar. Sem esse negócio de “primeiro vou faturar aqui uns trocados”... Aí vai ficar a vida inteira assim, porra! Eu mesmo guardava dinheiro no colchão. Levava boladas no bolso e distribuía pelos botecos da orla carioca. Pelo menos vocês ainda têm o Millôr, o Veríssimo...
CARECA: ... Pelo menos... Voc...
VINÍCIUS: ... Quero dizer uma coisa. Fiz a minha parte. Experimentei. E vocês? Nem sabem direito o que estão fazendo aí, tão entorpecidos com notícias, TV, imagens... Pensam que era fácil bolar canções? A gente dava um duro inventando a vida, porra! E agora vem me pedir conselho? Eu deixei aí tudo o que podia. Todos os meus conselhos estão espalhados em livros, músicas, ensaios, críticas, mulheres... É isso que é a eternidade. Aqui, do além, não tenho dicas pra dar. Apenas palavras para lamentar.
CARECA:
VINÍCIUS: Rapaz?
CARECA:
(Careca sai da sala)
VINÍCIUS: Isso... Vai viver em vez de ficar aí fugindo do mundo, porra! E manda um abraço para o Millôr.
Finalmente chegou o verão e com ele turbas de mulheres invadem a avenida Paulista, os cinemas, shoppings, sorveterias, lanchonetes, agências bancárias e até a popular e vibrante 25 de março, trajando vestidos maravilhosos, que ventilam as partes baixas e sandálias que deixam os pezinhos à mostra, enfim uma verdadeira perdição para homens que amam perdidamente mulheres, isso mesmo mulheres e vestidas como tais.
Toda mulher de vestido possui uma áurea de santidade, a la Boticceli, uns lençóis entre as pernas, voando ao sabor do vento e cuja única promessa é a delícia e o prazer a ser revelado de uma única vez. O vestido das santas tem o charme do porvir das devassas, uma espécie de querer mais quase sem querer aliado a uma acessibilidade e descrição digna de cafajestes antigos, de quando o sexo era tabu, e faze-lo na rua e no bonde, ou quiçá no salão de baile era motivo para muita pancada no lombo desferida pela Polícia.
Os tempos mudaram, é verdade, mas a beleza de uma mulher trajando um vestido, suada, em um dia ensolarado reascende o que há de melhor em mim, uma vontade pujante e firme de fazer sexo, afinal também somos animais, não é mesmo?
Agora, as sandálias são um tesouro a parte, os pés femininos possuem algo de arte erótica sobre a qual é difícil falar, os pés das mulheres, via-de-regra, são como passarinhos alegres cantarolando beije-me, acaricie-me e divirta-se, será que a bebida que tomo é forte demais?
Não há mulher que não saque o tesão que corre em suas veias ao fitar seus pés e disparar: “nossa, que pezinho lindo você tem!”
Ela sabe que só um homem de verdade conhece os prazeres escondidos nos pés femininos e por isso, uma inocente e cômica observação como essa é o prenúncio do gozo, da satisfação plena ou na pior das hipóteses uma cabeça inventiva que será capaz das melhores sacanagens desenvolvidas ao longo dos milênios com aquela pequena mais pudica, se é que isso ainda existe.
Mulheres, por favor, usem vestidos! Nós machos agradecemos, viu?
James Bond está numa clínica se recuperando das porradas que levou numa rigorosa sessão de tortura. O agente secreto ficou literalmente de saco cheio depois de sofrer o diabo nas mãos do próprio.
Eis que surge Vesper, sua amada, e antes de finalmente se entregar ao herói, duela nos seguintes termos com o pobre serviçal de Sua Majestade:
VESPER – Bond... Mesmo que só tivesse te restado o dedo mindinho e seu sorriso, ainda assim você seria muito mais homem do que todos que já conheci.
BOND – Você fala isso porque sabe do que sou capaz de fazer com meu dedo mindinho.
Corta. Na cena seguinte, o novo 007 (Daniel Craig) arranca a roupa da pequena (Eva Green, uma espécie de Grace Kelly pós-11/09) e fica com o coração em brasa, mandando tudo –inclusive a simpática M- para o inferno.
Até tu, Bond? Sim, os brutos também amam. E ficam em pedaços se não são correspondidos.
A seqüência acima não é fiel ao que acontece em “Cassino Royale”, o mais recente rebento da franquia 007, porém é o clímax de uma árdua batalha para se conquistar o coração de uma fêmea.
O cobiçado agente secreto prova que amar é uma dureza, mora. Danem-se os vilões que choram sangue, as guerrilhas africanas, os mauricinhos borra-botas que lambem o rabo da rainha... Em nome do amor, James Bond manda todos catarem coquinho, ver se ele está na esquina, ao lado do metrô Picadilly Circus.
Meninas, eis uma chance para vocês entenderem como é traiçoeiro confiar nas artimanhas da paixão. Não à toa o filme gira -em falso, muitas vezes- ao redor do amor e do jogo, que formam dois lados de uma mesma moda.
Tanto na cama como na mesa de pôquer, os amantes jogam, blefam, trapaceiam, ganham muito e perdem mais ainda.
É impossível sacar se estamos diante de uma sequência vagabunda de naipes ou de um Royal Straight Flush. Quando pensamos dominar os tiques da amada, lá vem ela com uma carta na manga e nos coloca para dormir no sofá.
As mulheres sempre se derreteram pelo charme, masculinidade e sacanagem de mister Bond. Mas faltava alguma coisa. O charmosão nunca declarava amor nem ia muito longe nas apostas. Para ele, amar era uma impossibilidade.
Desconfiado, sabia que as pequenas enganam como ninguém. Partia para o ataque, conquistava uma ou outra jogada, recolhia os dividendos e bye-bye.
Só que o tal do Daniel Craig chega para mostrar que o sujeito amou um dia. Um maldito dia, aliás. Meteu as fichas na mesa e... Perdeu feio.
Pois digo aqui mister Bond, James Bond, amar é realmente uma baita encrenca. Salvar o mundo é pinto perto do esforço que é encontrar a tal metade da laranja.
Dói demais. Não bastassem os cronistas, poetas, Caetanos das esquinas falarem de amor, agora vem esse inglês marrento provar que gostar de alguém é uma luta inglória, cheia de socos, pontapés, xingamentos e algum sexo.
E a aventura vira drama quando a gente descobre que aquela não era a tampa da panela. Muitas vezes compramos uma bonitona, de aço escovado, da melhor marca. Mas não serve para cozinhar nosso caldo.
Ora, o mister Bond desistiu na primeira tentativa. Foi lá, viu como era e caiu fora. Vejo aqui aquela cara de pitbull dizendo:
“Meu nome é Bond, Bond de cama. Sabem por quê? Porque desisti de amar. Amar é uma big shit. Não tenho paciência para ser como esses jogadores que perdem várias vezes até ganharem a bolada que garanta sua aposentadoria. Comigo não tem blefe porque não tem jogo. Eu não amo. Por isso deixo a mesa do cassino fechada. E desce mais um dry-martini. Batido.”
“Cassino Royale” deveria ter trilha-sonora do Reginaldo Rossi. É um filme de amor, bebedeira, cornos, alguma pancadaria e garçons. E o vilão se chama Le Chiffre. Verdade. É ou não uma obra romântica?
Quanto a esses daí que comentam a metrossexualidade do sujeito... Esqueçam. 007 pode ter lá sua barriga tanquinho e uma certa vaidade ao se olhar no espelho, mas a maneira com que ele defende sua mulher... Ah, só um MPNM de verdade para afundar Veneza em busca de um tiquinho de amor.
Você vai entender o calvário do agente se um dia ficou sem chão por causa de alguém.
Pobre Bond. Faço aqui o seu drinque favorito e brindo ao desespero da paixão. E agradeço por você estar fora da parada. Deixe esse negócio de amor para nós, eternos jogadores.